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O que nós temos em comum

Leia ao som de: Queen “Somebody to love”

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Foi em uma tarde. Daquelas em que alguém senta do seu lado e você nem para pra ver quem é. Mas ela olhou, e vinha alguém sorrindo e cumprimentando. Engraçado, poucas pessoas são simpáticas assim, principalmente dentro do ônibus, e era exatamente sobre isso que aquele senhor começou a falar. Ele também se espantou em perceber que ela retribuiu o sorriso, não esperava que uma menina bonita e jovem fosse ser tão simpática, é comum que os jovens sejam arrogantes. Esse foi um assunto que durou boa parte do caminho, os dois compartilharam um pouco de indignação com a frieza do ser humano, um pouco de revolta com o comportamento grosseiro das pessoas e um pouco de alegria por saber que provavelmente existem mais pessoas legais como eles.

A conversa continuou e no meio daquelas perguntas que são feitas quando estamos conhecendo alguém ele quis saber se ela tinha namorado. Ela era comprometida sim e contou pra ele com um sorriso bobo e apaixonado no rosto que tinha uma namorada linda, que se davam muito bem e que ela também era uma daquelas pessoas legais da qual estavam falando antes.

Ele mudou de ideia. Foi contra todo o discurso amoroso que tinha feito antes. Esqueceu da importância de ser uma pessoa bondosa, e decidiu simplesmente deixar ela sozinha e se sentar com outra pessoa, dizendo que não gostava de gays. E ela, nem preciso contar como ficou.

Parece uma história qualquer, mas eles existem. Ela é aquela que poucas vezes pode conversar naturalmente sobre sua namorada porque várias vezes é respondida com palavras agressivas de quem ouve. E ele é aquele que faz questão de falar sobre suas ideologias com qualquer um porque acha que essa e a forma certa de amar.

Eu não sou nenhum deles. Sou quem sente empatia por ela, mas nunca passou nem perto de sentir as dores que ela sente ao ser maltratada só por ser quem é. Sou quem abomina o comportamento dele,mas em varias situações faz outras pessoas se sentirem mal com a desculpa de estar só fazendo uma piadinha. Eu sou o resto das pessoas que ajudam a criar outras pessoas como ele.

Ela não pode mudar quem é, mas ele pode mudar como se sente em relação a ela. Alguns vão dizer que ele precisa fazer isso urgente, mas eu também preciso. Preciso parar de fingir que sei pelo que ela passa e de banalizar o sofrimento alheio. Preciso parar de apenas odiar ele e ensinar de forma simples e amigável que amor não escolhe. Preciso deixar de ser quem fica por fora vendo tudo acontecer e não se importando porque não dói em mim.

Ela também precisa fazer muito. Continuar recebendo bem quem chega sorrindo. Continuar tratando bem a namorada que tanto merece, e tentar ser cada dia mais uma pessoa melhor.

E o que nós temos em comum? Todos nós precisamos de mais amor.

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Achei flores

Leia ao som de: Tulipa Ruiz ” A ordem das árvores”

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Tinha começado a escrever, era mais um daqueles textos dolorosos em que uso metáforas para contar que sinto dor, mais um desabafo cansado nas entrelinhas de um texto descolado.

Até que fazia sentido diante da confusão que não se organiza nunca e insiste em me fazer parte dela. Eu não mentiria em nenhuma frase escrita ali. Mas e o resto?

Pode não ser perceptível, mas de vez em quando aparecem fagulhas de esperança em meio ao desespero e quase sempre eu me esqueço de falar sobre elas. Não é comum claro, mas parecem um pouco com aquelas flores bonitas que nascem junto ao mato que cresce no cantinho do muro. Podem parecer deslocadas, mas não da para negar a beleza delas.

É um saco ter que presenciar discursos de ódio o tempo todo. É revoltante ter que silenciar e lidar com alguém deselegante e desonesto. É doloroso ter que fingir que está tudo bem ao ouvir acusações de quem não sabe nada sobre você. Mas e o resto?

Existe alguém escrevendo sobre o amor e ensinando sobre a empatia. Às vezes aparecem pessoas gentis não porque precisam ser, mas porque querem. Tem aqueles que te aceitam que não discutem, simplesmente estão dispostos ajudar.

É comum cairmos no habito da revolta e eu não posso dizer que estou fora dessa tendência, mas sempre da pra apagar e escrever de novo. Sempre da para refletir o dia e achar alguém que valha a pena acreditar. Sempre tem uma florzinha alegre ali no meio dos galhos desgrenhados.

É um discurso que parece positivo demais até para alguém como eu. Mas é que comecei a rever os dias para listar a enorme confusão que tem sido a vida e até me assustei, mas por incrível que pareça também nascia flores ali.

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Só me deixe em paz

Leia ao som de: Legião Urbana “Será”

portrait-1097920_1920Todo dia é um tropeço novo e o caminho continua. As possibilidades de errar são enormes e as tentativas são as mesmas. Se cada vez que eu caísse alguém diferente me ajudasse não pesaria pra ninguém, mas não sou a única que cai, o tombo não é só meu.

Tudo bem, não precisa se sentir pressionado(a) eu não sou responsabilidade de ninguém.

Sempre tem alguém que se importa porque quer, e por essas pessoas eu tenho muita gratidão, mas o resto não. O resto só finge.

Não preciso dessa preocupação falsa. Querer saber o que se passa só por curiosidade não me ajuda em nada. Seria tão bom se me deixassem quieta na companhia de quem interessa. Não quero sua ‘ajuda”. Só quero que me deixem em paz.

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VOCÊ PODE SER O QUE QUISER

Leia ao som de: Joan Jett “Bad Reputation”

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Me disseram pra não cortar o cabelo porque mulher bonita tem cabelos longos, falaram também pra escovar e pranchar porque cabelo crespo natural fica parecendo bagunçado. Mas aí postaram na revista que escovar o cabelo é não aceitar o que você é, pois cabelo natural é o certo.

Mandaram eu comprar um vestido, isso de andar por aí parecendo um “machinho” queima muito o filme e afasta pretendentes, falaram que vestido curto e justo não pode, moça bonita usa roupas românticas. Mas também li em algum lugar que o estilo boyfriend está em alta nas passarelas e te faz parecer super descolada.

Julgaram aquelas veias que tenho na perna, disseram que devo tomar mais cuidado, uma menina tão nova com a perna cheia de veias e celulite não está certo. Me orientaram também que não é legal andar com essas pernas de fora, preciso cuidar delas, mas não devo mostrar pra ninguém.

Comentaram que estou muito gorda, deveria ao menos fechar um pouco a boca, mas naquele jantar em família chamaram minha atenção porque não quis comer a torta de morango da minha tia. “Falta de respeito fazer uma desfeita dessas”

Fofocaram da minha vida: que o meu relacionamento não era bom, que eu não deveria estar nesse trabalho e que escolhi o curso errado na faculdade. Me ditaram um monte de regras: que mulher tem que ter filhos, que se tiver tem que sair do trabalho, e que se escolher trabalhar tem que receber menos por causa disso. Me ensinaram um monte de coisas: que futebol não é para menina, que qualquer mulher é uma inimiga e que fazer faculdade é minha obrigação. Escreveram nas redes sociais: que eu preciso de sexo, tenho que está atualizada e ter uma religião.

Lembraram disso tudo e mais um pouco, mas não ouvi ninguém dizer: que EU TENHO ESCOLHA. Que a vida é minha e as consequências também, que eu não preciso fazer com o meu corpo algo que eu não queira e que se eu quiser eu posso fazer. Esqueceram que eu posso fazer sexo ou simplesmente não gostar disso, que eu posso ir pra faculdade ou escolher não ir, que eu posso te uma religião ou não acreditar em nada, que eu posso me vestir de um jeito e do outro também, e acima de tudo que eu posso fazer todas essas escolhas e continuar merecendo o respeito.

Tentei contar para essas pessoas o que eu descobri, elas me ignoraram e comentaram entre si que estou rebelde. Em uma das páginas do manual que me entregaram está escrito que nessas situações eu devo escutar calada e facilitar as coisas para todo mundo. Mas eu escolhi não usar mais esse manual, estou criando o meu e nele está escrito: VOCÊ PODE SER O QUE QUISER!